1 de março de 2012

Drive

por Eduardo Monteiro

Drive, EUA, 2011 | Duração: 1h40m48s | Lançado no Brasil em 2 de Março de 2012, nos cinemas | Baseado no livro de James Sallis. Roteiro de Hossein Amini | Dirigido por Nicolas Winding Refn | Com Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston, Albert Brooks, Ron Perlman, Oscar Isaac, Christina Hendricks e Kaden Leos.

Em determinado momento de Drive, o motorista vivido por Ryan Gosling menciona a tradicional parábola do escorpião e do sapo, na qual o aracnídeo, em uma situação de vida ou morte, recorre ao anfíbio apenas para, segundos depois, trair sua confiança de um modo que compromete a sobrevivência de ambos, justificando a traição (uma ferroada venenosa durante a travessia de um corpo d'água) como sendo parte de sua natureza - e a menção não poderia ser mais adequada, já que o longa nos apresenta a um grupo de personagens agindo de forma impulsiva e inconsequente diante de um contexto no qual suas verdadeiras e brutais naturezas têm a chance de aflorar.

Roteirizado por Hossein Amini com base no livro de James Sallis, o filme traz o personagem de Ryan Gosling como um homem de poucas palavras que, além de trabalhar na oficina mecânica de Shannon (Craston), realiza alguns trabalhos como dublê de motorista e, esporadicamente, coloca-se à disposição de bandidos para transportá-los de um local a outro sem envolvimento maior no crime que estiverem cometendo. Porém, após conhecer e afeiçoar-se por sua vizinha Irene (Mulligan) e, especialmente, por seu filho Benicio (Leos), o homem é impulsionado a colaborar com Standard Gabriel (Isaac), ex-presidiário casado com a mulher e pai do garoto, em um assalto que garantirá o pagamento de uma dívida iniciada na prisão e que coloca em risco a segurança de sua família. Mas quando a operação não sai como o planejado e Standard acaba morto, o protagonista passa a ser perseguido por homens perigosos e, com Irene e Benicio ameaçados de morte, ele se vê obrigado a atacar os vilões com igual violência e intensidade.

Dirigido pelo dinamarquês Nicolas Winding Refn, Drive se destaca por uma abordagem pouco tradicional em filmes sobre assalto e máfia: afora o discurso no qual descreve seus métodos como motorista de fuga logo na primeira cena, o personagem de Gosling permanece calado e com o semblante fechado por boa parte dos minutos seguintes, transmitindo com perfeição sua solidão e o isolamento emocional que define sua trajetória. Investindo muito mais em um clima contemplativo do que expositivo, Refn constrói com delicadeza e economia a aproximação entre o motorista e os recém-descobertos vizinhos: repare, por exemplo, como a entrada do homem na vida daquela família é representada com discrição e eficiência pela simples ambientação das cenas, já que, contrapondo a única e obscura aparição de seu apartamento no primeiro plano do filme, o motorista é visto por diversas vezes no aconchegante lar da vizinha (e em determinado diálogo, os tons quentes da parede atrás de Mulligan e o azul por detrás de Gosling são bastante sugestivos), ao passo que um passeio do trio comandando pelo motorista em um reconfortante e inexplorado local perdido em meio à cidade de Los Angeles pode ser simbolicamente encarado como um convite do protagonista para a aproximação de Irene e Benicio.

Felizmente, a relação entre os personagens de Gosling e Mulligan nunca recai na pieguice dos romances convencionais, até mesmo porque a introspecção emocional do homem parece habilitá-lo muito mais a estabelecer uma relação ingênua e primitiva (daí a proximidade maior com Benicio) do que a aventurar-se em uma relação mais adulta. Assim, o único beijo trocado pelo casal acaba funcionando mais como um pedido de compreensão do homem diante dos inesperados (para a mulher) e violentos eventos que virão a seguir do que como uma consumação da afinidade entre os dois, ao passo que detalhes como o uso pontual de câmera lenta, a preocupação instantânea de Irene em relação à periculosidade do trabalho do vizinho como dublê ou os poucos, tímidos e incontidos sorrisos que Ryan Gosling solta pontuam perfeitamente a identificação entre o motorista, a mulher e o garoto, momentos estes embalados por uma trilha que não tem vergonha de ressaltar a doçura daquela relação.

Aliás, a trilha sonora é um dos pontos altos de Drive, desde o repertório com canções que evocam os anos 80, marcadas por letras adequadas à trama (às vezes excessivamente), até os acordes tensos que acompanham a brilhante sequência de fuga que abre o filme, mérito alcançado não só pelo trabalho do compositor Cliff Martinez, mas pela sinergia alcançada em conjunto com a direção de Refn (que nos coloca dentro do carro, vivendo as mesmas emoções e ansiedades dos fugitivos), a montagem de Mat Newman (que alterna maravilhosamente bem as reações dos personagens e a ação externa), o ótimo trabalho de edição de efeitos sonoros (sons de tiro, sirenes, do motor do carro e do rádio da polícia desempenham um papel fundamental) e a atuação minimalista de Gosling, que confere ao motorista uma excepcional e mecânica competência atrás do volante. Ainda nesse aspecto, é interessante notar como o ator consegue manter o personagem centrado, porém ligeiramente mais agitado, quando este é jogado em uma perseguição inesperada e mais intensa em um momento posterior do filme.

Além disso, Gosling faz um trabalho impecável na transformação de seu personagem a partir do ponto em que toda a situação começa a fugir do controle, quando o próprio filme torna-se mais inquietante e recebe doses cavalares de violência gráfica cujo choque é mais do que adequado aos rumos que a história toma. Nesse sentido, Bryan Cranston, Albert Brooks e Ron Perlman, cada um a seu modo e com suas peculiaridades, fazem um bom trabalho dando vida a homens covardes que, incapazes de formular modos alternativos e pacíficos de resolver os próprios problemas e subestimando a ameaça representada pelo protagonista, não hesitam em permitir que suas naturezas brutais aflorem e passam a tomar decisões automáticas e instintivas, acreditando cegamente que trair os próprios parceiros não acarretará em maiores prejuízos para si mesmos e para seus negócios pessoais.

O que nos traz de volta à parábola do escorpião e do sapo e à personalidade do protagonista, cujo paralelo torna-se ainda mais interessante quando relacionamos as duas a um diálogo transcorrido entre o motorista e Benicio em determinado momento: aparentemente sem indícios suficientes sobre o antagonista do programa de tevê ao qual assistem, o homem pergunta ao garoto quem é o vilão e como ele consegue ter tanta certeza disso, tendo como resposta "(...) o tubarão, porque tubarões são sempre os vilões. Olhe para ele; parece bonzinho?". Estas respostas, evidentemente, deixam o motorista intrigado, e não é para menos: afinal, um homem exclusivamente motivado a proteger pessoas amadas e inocentes, disposto a colocar a própria vida em risco por elas, mas que também é capaz de esmagar furiosamente o crânio de um oponente já inconsciente, é um herói ou um vilão?

A verdade é que, mesmo surgindo em diversas cenas usando uma jaqueta com um escorpião estampado nas costas, o motorista visto aqui jamais poderia ser diminuído a um estereótipo fabulesco nem a uma vilanização digna de programas infantis - e nesse sentido, o jogo de espelhos que confunde o espectador enquanto o protagonista veste uma máscara antes de realizar uma cena de capotagem como dublê é bastante emblemático sobre sua personalidade. Contrapondo à sua natureza violenta e psicopata, vemos também com extrema clareza sua natureza amorosa e protetora emergindo - e convenhamos que complexidade como essa, fábula infantil nenhuma consegue alcançar.